O PRIMEIRO EMPREGO DO TCHÊ
O mais incrível com relação ao trabalho, foi o primeiro emprego dele. Segundo ele me disse, aos seis anos lhe deram o primeiro emprego: Guia de Cego! O salário, não se lembrava mais, pois ainda se falava em mil réis! E o Seu Neco, ou Maneco, como ele se apresentava e as pessoas conheciam o Sr. Manuel Marques da Luz, o 1º patrão pagava diretamente à mãe dele. Aqui acolá as pessoas perguntavam como ele ficou cego e ele contava sua história: que ficara cego devido ter almoçado e, sem ao menos fazer um descanso ou a digestão, retornou ao trabalho de abrir valetas na roça, para conter uma praga de gafanhotos que formavam nuvens e assolavam o lugar naquela época, comiam tudo o que tinha pela frente e ao chegarem no valo, eles caíam e nessa hora tinham de ser cobertos rapidamente com a terra da valeta, antes de saírem do outro lado e havia poucos trabalhadores. O Seu Neco dizia que teve uma congestão porque almoçou e retornou rápido ao árduo trabalho de conter os gafanhotos, como consequência, ficou cego. Segundo o irmão mais velho do tchê, o Laureano, ele trabalhou com o Cego por cerca de um ano e meio, mesmo depois de ter começado a ir para a escola aos sete anos. No período contrário às aulas, continuou a guia-lo. O tchê me contou que nessa época (antes da escola) conheceu boa parte do RS viajando de trem, em vagões de 2ª classe. Outra forma de viagem usada era pela Empresa Barim, cujos donos davam passagem de graça para as cidades que serviam. Nas cidades visitadas eles dormiam nos presídios (sempre tinham celas vazias no interior do Estado naquela época) e não pagava diária, nem pelas pousadas, pois era de favor. O seu Maneco falava com o encarregado do presídio, geralmente um cabo ou sargento da Brigada Militar e garantiam o banho, o pouso e até o boião. Me falou também, que muitas vezes levou tapas na cara, pois no início das atividades, aqui, acolá, esquecia de avisar sobre um degrau ou um buraco, ou descida na calçada e era uma topada ou uma perda do pé do cego e, na mesma hora rolava um tapa, para não esquecer mais. E, apesar de cego, a altura da mão dele alcançava certinho a sua cara! Apesar desse contratempo, nas peregrinações, conheceu várias cidades do Rio Grande do Sul “guiando o Seu Maneco”. Quando estavam na cidade, andavam de ônibus de um bairro para outro, costumava entrar pela porta de trás e sempre o povo cedia lugar prá ele e o cobrador também não cobrava dele (nessa época o cobrador circulava de banco em banco). Conheceu toda a sua cidade de norte a sul e de leste a oeste.
Falou que muitas pessoas testavam a cegueira do patrão levando as mãos, os dedos, até ameaçando com faca ou canivetes na direção dos olhos e rosto dele, mas ele não se mexia, atestando que era cego mesmo. Diariamente ele chegava nas bodegas para tomar um traguinho de pinga antes do almoço e do jantar, quase sempre acompanhado de um pedaço de queijo ou salame cosido, doado pelo bodegueiro, às vezes ganhava até estragado, mas acabava comendo. Nessas horas aproveitava para cortar um fumo em rolo e preparava um “paiero”. Nessas bodegas quase sempre dormia um gato bem gordo e preguiçoso em cima do balcão e daí surgiu o ditado: “mais folgado que gato de bodegueiro” e a primeira vez que o tchê foi brincar com o gato, levou um tapa na cara que saiu sangue e ficou vários dias com a cicatriz da pata do gato. O almoço e o jantar quase sempre eram doados nas casas aonde pediam esmolas. Muitas vezes iam a restaurantes no final do almoço e do jantar, quando não havia mais clientes, assim ganhavam “completos” (PFs).
Apesar de cego, tinha uma filha Julieta e, quando estava na cidade, ele vivia na Vila Caramelo, com a Dona Angelina uma carroceira que vivia de comprar e vender quitandas. Comprava nas vilas do interior e vendia no comércio e nas vilas perto da casa dela. Ele me disse que nessa época assistia a fabricação de cerveja caseira, preta e branca, com a Dona Angelina, a patroa. A cerveja era maturada no porão da casa, que tinha uma abertura no assoalho para guardar as garrafas até chegar ao tempo de consumo, mas nunca deram pra ele nem provar.
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