O ARROCHO (como professor) NO PRÉZINHO
O Tchê disse que a 1ª vez que trabalhou em uma Escola Particular,
pequena, com turmas do prézinho até a 5ª série, para ministrar aulas de inglês,
sofreu um pouco. As primeiras aulas são sempre as mais problemáticas, pois não
conhece aos alunos e nem eles o conhecem. Com o passar dos dias, foram se
conhecendo mutuamente e havia uma turma com um aluno extremamente
agitado, irrequieto, não dava folga a ele e nem aos próprios colegas. Numa certa
aula sobre as cores, foi a gota d’água. A tarefa era pintar a paisagem usando os
lápis de cores, conforme ia falando e estava escrito nas figuras, mas os alunos
não sabiam ler ainda. Conforme ia dando as instruções, todos iam pintando, mas
o dito cujo apenas fazia um risco com a cor indicada e gritava: o meu está
pronto! O tchê disse que ia até a mesa e explicava como tinha de fazer:
preencher tudo o que estava dentro da figura, fazendo o contorno, preenchendo
com o lápis na cor indicada todo o espaço delimitado, para ficar bonito e concluir
a tarefa igual aos outros coleguinhas, mas o aluno parecia não entender. O tchê
contou que foram tantas vezes que chamou a atenção do aluno e o aluno não
tinha jeito de fazer direito, que não aguentou e tacou um beliscão no braço do
aluno! Ao agir daquela maneira, os alunos ficaram tensos, todos ficaram em
silêncio e antes do aluno começar a chorar, pegou no braço de outro aluno e
torceu o uniforme na altura do ombro, como se tivesse dado um enorme
beliscão, repetindo o mesmo gesto de torcer o uniforme com beliscões nos outros colegas e repetindo: “e tu também! faz a lição direito!”. Se o aluno beliscado de verdade ficou com alguma marca no braço, nunca soube e nem sabe explicar como tomou aquela atitude repentina de torcer o uniforme de vários estudantes, pois se tornou uma brincadeira dentro da sala de aula naquele dia e se o aluno o entregasse para a Direção da Escola, tinha várias testemunhas que ele não tinha beliscado de verdade e isto o salvou da demissão.
VOU TE PROCESSAR PROFESSOR!
O tchê disse que quase sempre trabalhou os três turnos dando aula, sendo dois turnos na escola pública e outro na escola particular. Falou também que os problemas e desavenças com os alunos, na maioria das vezes acontecem nos primeiros dias de aula. E dessa vez não foi diferente. Ele disse que foi contratado para ministrar aulas e o semestre já tinha iniciado há uma semana. Tudo acertado com a direção e coordenadoria, lá vai o Tchê para a sala, a porta estava fechada e a maior bagunça lá dentro. Ao abrir a porta, deu um passo e parou: havia um aluno em pé em cima da mesa do professor e, este notou a entrada do professor na sala. O Tchê me contou que nesta hora, antes de falar qualquer coisa, nem mesmo chamar a atenção do aluno, este, sem nem descer da mesa, falou: Professor olhe bem para a sala e, se me chamar a atenção vou processá-lo por racismo! O Tchê falou que custou a entender as palavras do aluno, mas olhou em volta da sala e por incrível que possa parecer, só havia ele mesmo, um único aluno negro na sala. No mesmo instante, o Tchê disse para a turma: pessoal, vocês não me viram e não estou aqui, saiu de costas e fechou a porta devagarzinho. Esperou do lado de fora a turma fazer silêncio e se recompor, colocando as carteiras no lugar, para depois entrar e se apresentar como o novo professor da escola. Depois, na hora do intervalo, o aluno foi conversar com o tchê e explicou porque ele era o único negro da sala de aula e, a partir daquela aula ficaram amigos e até hoje quando se vêem na rua se cumprimentam e até batem papo. Ah, o motivo, o aluno era filho de uma funcionária da escola e ganhou uma bolsa escolar, por isso conseguia estudar em escola particular. Parece constrangedor, mas era uma grande realidade da sociedade num passado não tão distante.
“HOJE EU VOU TE MATAR, PROFESSOR!”
Para recordar algumas conversas, para não dizer algumas confissões do Tchê, vou relatar alguns casos acontecidos que ele me relatou. O primeiro episódio que veio à cabeça dele foi quando recém tinha iniciado o ano letivo no noturno, nas primeiras aulas, estava ele escrevendo a matéria no quadro quando ele ouviu algum aluno lá no fundo da sala falar bem alto, para todos ouvirem: “Hoje eu vou te matar, professor!” Ele relatou que naquele momento, parece que o mundo pára!!! A sala imediatamente se transforma num silêncio sepulcral, é tão grande que se ouve o bater de asas de um mosquito (carapanã, pernilongo)! A sala (os alunos) espera um desfecho daqueles, estrondoso, às vezes a Direção da Escola tem de intervir e outras vezes até vira caso de polícia e muito mais... Mas, em se tratando do Tchê... Ele me disse que nem se virou para ver quem havia feito semelhante ameaça e que respondeu de supetão, sem nem pensar... “só se tu vestires uma saia, vivente!!!” parece que ninguém entendeu o que o Tchê respondeu ou falou no linguajar dele, pois nem se virou para falar!!! Nem mesmo quem tinha dito que ia matá-lo, voltou a se pronunciar, ele acha que o ameaçador não entendeu nada. A resposta que ele deu ficou em branco. Aí ficou o dito pelo não dito e a aula se desenrolou normalmente até a hora da sirene tocar e acabar a aula. Um aluno se aproximou do Teacher, cumprimentou-o, pegou na mão dele e sapecou: “hoje eu tava a fim de qualquer besteira, mas o senhor não me enfrentou!” O Teacher me confidenciou que ao segurar a mão de seu discípulo, estava gelada, suada e o aluno quase nem se continha em pé! Disse-me ainda, que o aluno confidenciou-lhe que havia tomado todas e nem deveria ter ido à escola, mas foi só para poder parar de beber. Disse, também que ainda conversaram “algumas abobrinhas” e ficou por isso mesmo. Soube tempos depois que o referido aluno tornou-se vigilante e sempre que se vêem, se cumprimentam e trocam algumas palavras rápidas. E a vida continua.
“ESSE PROFESSOR É UM BABACA!!!!”
Quando o Tchê me contou esta história, na hora do intervalo, ele ainda estava meio nervoso. Estes acontecimentos são comuns no início do ano letivo quando alunos e professores tem os primeiros contatos. “Tu acreditas, que estava eu dando a minha aula tranquilo e um aluno me chamou de BABACA? Ele disse com todas as letras “ESSE PROFESSOR É UM BABACA!!!!” E o que tu fez gaúcho? “Só me virei e concordei com o aluno que falou: Tu tens razão! Sou babaca mesmo! Eu devia era revisar gramática, coisa que vocês vêem desde o 1º ano de Inglês, como o verbo “to be” e não dar aulas diversificadas, como ensinar matemática em inglês, coisa que é cobrado no PAS!!!” E tu não levou o aluno para a direção?? que nada! Ele disse que desconfiava de um aluno que tinha dito aquilo, mas não perguntou prá ninguém, para não se estressar e nem se incomodar, logo no início do ano letivo. Disse ainda, que faz parte da vida do jovem tentar desafiar seus pretensos superiores, especialmente os professores, para se impor perante seus colegas e, com essas atitudes, cresce o conceito do aluno desafiante com os colegas e, por uma atitude destas, muitas vezes estes alunos se tornam líderes da turma.
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